A Desumanização do Trânsito

A manchete desta sexta-feira de um dos jornais de Porto Alegre,  “Cresce Estresse No Trânsito”, fala sobre uma briga no trânsito ontem à tarde que congestionou a área central da cidade, quando dois motoristas pararam seus carros e trocaram socos.  Há dois dias atrás outra manchete anunciava um motorista que teve parte de uma das orelhas arrancada à mordidas em uma disputa no trânsito no DF. A cobertura da imprensa corporativa no Brasil, como sempre é superficial e não aponta a raiz dos problemas, falam em estresse, mas não falam da causa dele e da violência que se segue.

Mas afinal, por que as pessoas se tornam tão violentas no trânsito?

É engraçado nos perguntarmos isso hoje em dia, pois até o Pateta já sabia disso há muito tempo atrás. O automóvel é um veículo enorme que é vendido como símbolo de independência e liberdade. O problema é que por ser um trambolho enorme, o carro precisa de muito espaço para se deslocar, e a partir do momento em que existem milhares de outros motoristas lá fora, isso leva à competição por espaço. Essa competição é agravada pelo fato de os veículos automotores serem jaulas de metal e vidro, que nos isolam do mundo ao nosso redor, desumanizando a relação com as pessoas ao nosso redor e nos dando a sensação de proteção, impunidade, e –  aliado a um motor de alta potência – poder. É fato, as pessoas se sentem mais poderosas atrás do volante, não precisamos de nenhum especialista para percebermos isto.

Aliando-se à tudo isto, a grande maioria dxs motoristas leva uma vida frustrada, trabalhando pelo menos oito horas por dia, para sustentar o seu estilo de vida,  que inclui usar aquela liberdade em forma de carro que lhes foi vendida pela publicidade. E a partir do momento em que até aquele instante de suposta liberdade e independência se frustra quando x motorista se depara com um congestionamento formado por milhares de outrxs motoristas na mesma situação, a bola de neve está formada.

E a situação só vai piorar. Acredite não há solução para esse caos no trânsito enquanto  continuarmos acreditando e investindo no transporte motorizado individual.

Se você não quer se estressar e fazer parte desse apocalipse motorizado, vá de bici, a pé, ou no mínimo vá de ônibus.

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5 respostas para A Desumanização do Trânsito

  1. Olavo Ludwig disse:

    Marcelo,
    Mais um texto excelente, muito objetivo.
    No final da tarde quando saio do trabalho para voltar para casa, o trânsito está tão infernal, que algumas vezes até de bicicleta eu me estresso, ai penso respiro fundo, mas começo a tossir e me estresso mais um pouco, fico puto da vida, mas logo arrumo um espaço e pedalo passando todos os carros parados, o estres vai embora rápido, e chego em casa, cheio de endorfinas no corpo, com uma sensação ótima e pensando como é boa a vida e o mundo é maravilhoso!!!
    Como é que o pessoal aguenta tanto dentro dos carros não dá para entender, na verdade entendo, eles nunca experimentaram ou esqueceram o que é liberdade de fato!

  2. Miguel disse:

    O legal foi ver os dois brigadianos acionados para resolverem a situação chegando ao local de bike, com as sirenes ligadas!

  3. Pingback: A Desumanização do Trânsito (via Massa Crítica – POA) « Volume 4

  4. Helton disse:

    Realmente, o trânsito de Porto Alegre está perdido. Há mais de seis meses comecei a ir para o trabalho de bike, e somente aí é que me dei conta de que há uma fundamental diferença entre pedalar por lazer, em horário de lazer (final de semana, ou à noite), e pedalar para (tentar) se deslocar nos horários de pico – se bem que nem existe mais horário que não seja de pico.
    A impressão que se tem é exatamente a descrita pelo texto: uma competição selvagem por espaço. Todo e qualquer motorista está com todos os nervos ligados, tentando detectar o menor espaço livre no trânsito e avançar sobre ele. Nesse processo, qualquer traço de paciência ou consideração para com o semelhante é abandonado, e o que se vê são ultrapassagens em alta velocidade sem as menores condições de espaço, carros se atravessando à frente de qualquer coisa – principalmente pessoas – para ocupar uma pedaço de asfalto mesmo que o trânsito já esteja engarrafado e ele vá ficar trancado de qualquer jeito, taxistas buzinando para senhoras atravessando na faixa de segurança – ou buzinando para o carro da frente caso este tenha parado para o pedestre -, motoqueiros andando por cima da calçada, espaços inacreditáveis sendo utilizados com a maior cara-de-pau para estacionar o carro (calçadas, rampas de acesso a cadeirantes, etc.). Infelizmente essa tem sido a realidade diária para mim e, creio eu, para qualquer ciclista que tente desafiar esse ambiente infernal.
    Uma coisa que chama atenção é que, ao contrário do que eu pensava e mesmo do que escuto outras pessoas comentando, as maiores barbaridades não são cometidas pelo motorista profissional – taxista, lotação, veículos de entrega – nem por jovens inexperientes ou pelos donos de carros velhos, mas sim por pessoas com mais de 40 anos em carros de luxo.
    A impressão que dá (e que parece ser confirmada pelo tom das mensagens publicitárias desse tipo de carro) é que a pessoa que compra um carro de luxo o faz porque quer se sentir superior. E, naturalmente, quando está dentro do carro, essa pessoa DE FATO SE SENTE superior. Ela não olha mais para os outros como semelhantes que compartilham o mesmo espaço: os outros ocupantes da via são uns coitados que, de preferência, devem sair logo da frente para que ela possa dar andamento, sem atrasos, à sua vida tão mais importante.
    Como disse o artigo, é um problema sem solução, infelizmente, já que até mesmo a imprensa nos leva a crer que o país “saiu da crise: recorde de vendas no setor automotivo” (parece que até o Banco Central já andou dando incentivos ao setor…).
    Enfim, só nos cabe esperar… E pedalar!

  5. renate disse:

    FANTASTICO..!! Precisamos divulgar essa ideia: Va a pe, va de bici. ..enfim.
    SO pra ilustrar: no predio em que moro ninguem andava de bici..so uma estava encostada(a do filho da sindica), entao aproveitei o gancho dizendo que, se ele tinha o direito de deixa-la la, nos tb tinhamos..etc..entao, aos poucos, e c/ mUUIta paciencia, conseguimos autorizacao para utilizarmos o mesmo espaco pra guardar nossas bici’s(dos meus 02 filhos + a minha propria); O que sucedeu? – Hoje ha, naquele espacinho, 07 bicicletas!! VIRAM? A gente TEM que difundir esse exemplo..esta cidade eh muito bonita pra nao ter ciclo-vias, eh o FIM!Cade os urbanistas?? +, a Petrobras, e lojas de Automoveis, etc ganham muito + fazendo esse tipo de alusao, ne?!Infelizmente..

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